Uma mulher na engenharia no Brasil

Pensei em escrever esse texto há algum tempo. Depois desisti achando que já existe muitas historias sobre minorias por aí. E não quis que a minha fosse mais uma.

Mas aí achei uma notícia no jornal, uma historia real, sobre duas sócias, duas mulheres, que tinham uma empresa na área de comércio de artes, e que criaram uma figura masculina fictícia para assinar e-mails e comunicações. E passaram a receber respostas mais positivas e também mais educadas de clientes, investidores e fornecedores.

E daí que essa historia daria um bom filme. E existem muitas histórias iguais por aí. A minha é mais uma delas.

Ainda na faculdade, o prédio onde eu estava, o prédio da engenharia elétrica, não tinha banheiros femininos. Você já deve ter visto isso em um filme recentemente lançado. Mas eu também tinha que atravessar parte dos prédios da faculdade onde me formei para usar o banheiro feminino, que existia apenas na ala do curso básico. Acho que supunham que uma mulher normalmente não faria engenharia elétrica, ao menos não em número suficiente que justificasse ter um banheiro feminino no prédio.

Comecei minha carreira como engenheira em uma multinacional de telecomunicações. Meu primeiro chefe fazia piadas machistas o tempo todo. Eu ainda era estagiária na época, então só tentava ignorar a questão e seguir em frente. Já nessa época quando fui contratada como engenheira, meu salário inicial era 30% mais baixo do que o salário de colegas engenheiros, homens, que tinham estudado na mesma escola de engenharia que eu, e que tinham as mesmas experiências que eu, as mesmas especializações. No início da carreira eles já tinham uma vantagem sobre mim. Eram homens.

Mas a questão das mulheres na engenharia não é só sobre salários sempre mais baixos que os homens na mesma posição. A questão maior é não ser levada a sério nunca. Não importa o que você faça, não importa o quanto você prove (e você precisa provar) o tempo todo que é competente e capaz de fazer o seu trabalho.

Quando estava à procura do meu segundo emprego, ainda na entrevista, me dizeram que fui recebida apenas como um favor para quem tinha me indicado para a vaga, já que não poderiam contratar uma mulher para o cargo de engenheira de microondas, porque o trabalho envolvia algumas visitas à campo, para verificar instalações de equipamentos. Equipamentos esses que ficam no topo de prédios (e então é preciso subir no topo dos prédios), ou instalados em antenas de celular em 60, 90 metros de altura.

Eu argumentei, que fazer esse trabalho de campo não seria problema algum para mim. Mas para eles era um fato. Uma mulher nunca iria subir 90 m em um torre de transmissão de celular. Eu sugeri que me contratassem e se eu não passasse na prova de capacitação entre os 10 melhores, eu não ficaria na empresa, pediria demissão.

Essa prova que eu deveria passar é na verdade uma curso, com certificado para quem o concluir, habilitando o profissional aprovado a executar trabalhos em altura. Éramos 50 engenheiros, eu a única mulher. Passei em primeiro lugar e consegui fazer parte da equipe. Essa equipe aliás era formada por 150 engenheiros. E uma mulher: eu. Era um andar enorme, lotado de homens. E eu e a secretária de mulheres apenas.

Mas os problemas não pararam por aí. Logo na segunda semana o chefe precisou de uma equipe para ir a campo para resolver uma emergência. Olhou nos pés de alguns engenheiros e escolheu todos os que estavam de tênis, e teriam portanto condições de subir em um prédio até a antena (muitas vezes as antenas ficam em lugares onde é preciso subir pela parte de fora do prédio, em uma escada tipo bombeiro). Escolheu 7 engenheiros. Olhou para meus pés, viu que eu estava de saia e salto alto nesse dia. E com um sorriso sarcástico me mandou ir junto com a equipe escolhida. Virou para o diretor, que estava ao lado e disse: “Quero ver quanto tempo ela vai durar aqui.”

E eu fazendo jus a minha fama de teimosa, subi no prédio descalça. Queimei os pés, estava muito sol naquele dia. Mas eu não poderia dar motivo algum para dizerem que uma mulher engenheira não pode fazer o trabalho de um homem engenheiro. Depois desse episódio eu sempre levava no porta malas do meu carro uma calça jeans e um par de tênis.

Além da situação acima, passei por historias até divertidas, mas que mostram que o preconceito está sempre por perto. Estava eu uma vez esperando uma equipe subcontratada de campo. Meu sobrenome é Valdo, que pode aqui no Brasil ser usado como primeiro nome masculino. E essa equipe de campo não chegava nunca, esperei mais de uma hora e nada. Liguei para empresa subcontratada. “Mas a equipe está ai, me disseram! Está te esperando há mais de uma hora, no prédio. ” E parece que não me encontravam. Fui ate o corredor perto da entrada, onde ficava a secretaria. A equipe estava lá. Procurado o engenheiro Valdo. Aí eu disse: “Valdo sou eu”. E a equipe: “Como assim? Uma mulher? Tem certeza de que é você que vai nos orientar em campo? Sim, eu tinha certeza!”

Na época eu achava que parte do problema era por eu ser jovem demais, e que então com o tempo o preconceito seria resolvido.

Mas aí chegaram os 40 anos, virei sócia e pesquisadora principal da minha start-up de engenharia, pesquisa e inovação em alta tecnologia. E na primeira vez que fui receber um investidor, ao abrir a porta para ele, ele antes que eu pudesse me apresentar, me deu seu casaco, e me pediu um café e uma água. Para ele estava claro que eu era a secretária. Mas aí você pode dizer que qualquer um poderia se confundir, um erro, claro. E eu pergunto: se um homem abrisse a porta, esse investidor assumiria que ele era um secretário? Com certeza, não.

Outra vez me perguntaram se eu era mesmo engenheira. Eu respondi que sim. E a pessoa insistia: “Engenheira de verdade? Sim, de verdade. Mas engenheira com diploma? Sim, claro! Tem outro tipo de engenharia? Que não precisa de diploma?”

E a coisa só fica pior. Certa vez: ” Nossa, você é engenheira mesmo? E formada na escola tal (uma boa escola, onde me formei). Sim, sou. Nossa, isso é raro. Pergunto o que é raro. Ah, uma mulher bonita engenheira. Então a teoria é: se você for “feia” (seja lá o que isso quer dizer) você até pode ser o que quiser. Mas se for “bonita”, não pode ser engenheira, de forma alguma.

Falando com possíveis clientes, eu ouvi mais de uma vez: ” Ótimo o seu trabalho. Mas você tem homens na equipe? Porque se você vier apresentar esse projeto sozinha aqui, ninguém vai te ouvir. Seu trabalho é bom, mas você pode trazer um homem com você para apresentar o que você faz no seu lugar?”

Daí você pode dizer que as coisas estão mudando. Sim, verdade, algumas estão. Nunca tive problemas com a  equipe que trabalha comigo hoje. Nunca questionaram minhas decisões, e essas decisões nunca precisaram ser repetidas por um dos sócios homens da empresa para serem atendidas ou entendidas.

Mas na própria enpresas, com os meus sócios a coisa nem sempre foi fácil. Parte deles passou a me respeitar como sócia, engenharia e pesquisadora apenas quando ganhei um primeiro prémio, o Leaders in Innovation Fellowship, com o meu trabalho na Royal Academy of Engineering, em Londres. Por isso programas como esse da Royal Academy of Engineering são tão importantes. E eu sou muito grata à eles pela visibilidade que o meu trabalho teve depois desse prêmio.

Mas a verdade é que dificilmente um homem vai fechar um negócio importante apenas comigo. Quando eu sei que se trata de uma reunião importante eu hoje levo algum homem da equipe comigo. Contratei um profissional sênior na minha equipe para me acompanhar em negociações importantes. Entre essa solução ruim ou perder o negócio, prefiro não arriscar se for algo realmente importante para o futuro do meu negócio.

E aí voltamos a história inicial daqui. Será que eu também vou ter que passar a assinar como homem para ser levada a sério como engenheira em 2017? E até quando isso? É esse mesmo o mundo que queremos para nossas filhas, futuras engenheiras?

Sei que é uma questão que não se resolverá de uma hora para outra. Mas é preciso expor histórias, e falar a respeito do preconceito que as mulheres enfrentam na engenharia.  Existem muitas historias como essa por ai. Essa é a minha.

 

 

 

 

 

 

 

This entry was published on setembro 25, 2017 at 12:12 am. It’s filed under comportamento, Engenharia and tagged , , . Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

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